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Mirandela

Um ano e meio de regresso ao passado graças a fotos e sons

Paula Preto, preparando a exposição. Foto © Rúben Castanheiro
Paula Preto, preparando a exposição. Foto © Rúben Castanheiro

O mercado municipal de Mirandela irá acolher durante o próximo ano e meio o projeto DAQUI, que a sua autora, Paula Preto, explica assim ao 7MONTES: “a ideia é entender a ligação de cada um aos lugares onde habita, recolher histórias de pessoas que regressaram, como se sentiram, o que mudou e o que se mantém, a perspetiva dos novos habitantes e o porquê de continuarem a sair jovens desse mesmo local. No fundo, é perceber como nos sentimos parte de um determinado lugar”.

Na primeira quinta-feira do mês, quem visitar o mercado de Mirandela poderá observar testemunhos fotográficos e pessoais de diferentes atividades que se realizavam pela região. Na abertura da exposição, a chuva não afastou o público, nem as crianças do 1º ciclo, que tiveram a oportunidade de participar numa oficina de pintura onde puseram em prática o seu sentido de “orientação”. O tema “Mãe d’Água” faz referência aos antigos lavadouros e lavadeiras, que marcaram a região.

As crianças, enquanto realizam a atividade proposta. Foto © Rúben Castanheiro
As crianças, enquanto realizam a atividade proposta. Foto © Rúben Castanheiro

Natural de Atenor, em Miranda do Douro, terra com bastante ligação ao burro [ver 7MONTES], Paula Preto, 44 anos, há vários anos que mora no Porto. Mas manteve-se em contacto com os costumes e interesses transmontanos. Através dos seus pais, que eram emigrantes regressados, conseguiu perceber desde cedo o que era “sentir-se de um lugar que não conhecia”.

O nome do projeto, fruto de uma candidatura à DGArtes, também tem consigo uma pequena curiosidade. “Por onde passava, muita gente me perguntava: A menina é daqui? Por isso, a escolha desse nome”, diz. Nesta primeira exposição as recolhas fotográficas estavam inseridas em tecidos, espalhadas pelo chão do mercado, como se fizessem parte dele e pudessem ser “tocados e pisados” pelos clientes e os visitantes.

Numa sala própria, é possível ouvir os sons ambiente que Paula gravou nas 52 aldeias que fazem parte do projeto. Numa delas, em Mirandeses, Mirandela, viveu um episódio enriquecedor. “Quando cheguei, num sábado, já no verão, as pessoas estavam a lavar nos tanques. Nada foi encenado, o que mostra que ainda há costumes que se mantêm”, refere Paula Preto.

O projeto englobará também uma parte de recolha sons e fotos de tudo o que existe nas ribeiras e rios que circundam as aldeias do projeto, sobretudo os seres vivos que e relacionam diretamente com a água. Para os tanques que estão inutilizáveis, este estudo pretende também perceber de que forma é que eles podem ser usados e melhorados.

Para Margarida Duque, 51 anos, chefe de divisão da cultura, turismo e saúde da Câmara Municipal de Mirandela e diretamente ligada ao projeto, este tipo de atividades têm uma “importância extrema” para o município. “É importante fazer-se este tipo de levantamentos para preservação da memória ao longo do tempo. Neste caso, os tanques eram pontos de encontro que vão escasseando, havendo cada vez menos contacto entre as pessoas. O retomar desses momentos é o nosso principal foco, com esta iniciativa”, refere.

Margarida Duque, chefe de divisão do turismo, cultura e saúde da Câmara Municipal de Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro
Margarida Duque, chefe de divisão do turismo, cultura e saúde da Câmara Municipal de Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro

Já Luísa Deimãos, professora da Escola Básica do Convento, em Mirandela, está no último ano da carreira profissional. Recorda os tempos em que lavava nos lavadouros da aldeia de Suçães. Destaca a importância de olhar o passado, “com olhos de ver”, porque “muitas vezes passa-se à beira das coisas e não olhamos para elas. Sabemos que existem e estão ali, mas não sabemos a sua história. Não se pode construir um futuro de qualidade se não soubermos das nossas raízes”. Mas nem todos os costumes caíram em desuso e Luísa lembra que em Suçães quando começa a haver escassez de água “ainda se organiza a ‘partilha’”, ficando alguém responsável por pedir ao padre que, na missa do domingo seguinte, anuncie do altar que o povo deve partilhar a água”.

Luísa Deimãos, professora da Escola Básica do Convento, em Mirandela. Foto  © Rúben Castanheiro
Luísa Deimãos, professora da Escola Básica do Convento, em Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro

 

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