Assine

Vilar Sêco, Vimioso

Usar o escrinho para chegar à lua antes dos americanos

O mural, feito em azulejo, que explica a lenda do escrinho. Foto © Rúben Castanheiro
O mural, feito em azulejo, que explica a lenda do escrinho. Foto © Rúben Castanheiro

Vilar Sêco, em Vimioso, guarda uma lenda, que envolve uma das atrações do concelho: o escrinho, um género de cesto feito pelo entrelaçar de palha de centeio e silva seca e usado para guardar a farinha e o pão. Aníbal Delgado, reformado, natural da freguesia, tem sido uma das pessoas que continua a impulsionar o escrinho, através da sua mulher, a única pessoa que os sabe fazer.

A narrativa é assim contada por Aníbal: “Reza a lenda que os habitantes de Vilar Sêco foram os primeiros a tentar chegar à lua. Pegaram nos escrinhos e amontoaram-nos, uns em cima dos outros. Como só faltava um para alcançar a lua, houve alguém que teve a ideia de retirar o primeiro e colocá-lo em cima. Só que o amontoado caiu, provocando uma enorme desilusão nos habitantes. Resumindo: confundiram a lua com um queijo, ficando sem ele para a refeição e ficando até hoje conhecidos como escrinheiros”.

Essa lenda deu lugar a uma espécie de mural, que Aníbal mandou construir, durante os tempos em que foi presidente da Junta de Freguesia. Situa-se no centro, junto à fonte da aldeia.

O escrinho é feito com cascas de silva e com “palha-centeia”. Devido à falta de aprendizes e ao trabalho que dá recolher o material, só Rosa Delgado, 67 anos, esposa de Aníbal, é que aprendeu a técnica. “É preciso desfiar a silva em quatro, e não pode ser uma qualquer. Tem de se escolher uma boa. Depois leva o seu tempo para formar o novelo, que tem que ser demolhado. A seguir vai-se entrelaçando com a palha-centeia, até formar o escrinho”, refere.

Aníbal diz que não foi por “falta de vontade”, mas sim, devido a um problema nas mãos, que não pôde aprender. Ele não aprendeu e outros não quiseram pelo que a tendência é que o saber fazer o escrinho se perca. “Não dá rendimento” financeiro, “não há apoios” para que se continue a produzi-los, além de que todo o processo da sua produção é “muito trabalhoso”: é preciso plantar o centeio; recolher a palha; transportá-la e guardá-la; cortar as silvas; escolher o melhor material; secá-lo e só depois se pode começar a fazer o escrinho. Além de que este é um trabalho estigmatizado: “quem fazia os escrinhos era considerado pobre”. Mas “se houvesse gente e auxílio”, Aníbal e Rosa por nada se importariam de ensinar outros a fabricá-los.

Rosa e Aníbal Delgado, os "impulsionadores" atuais do escrinho em Vilar Sêco. Foto © Rúben Castanheiro
Rosa e Aníbal Delgado, os “impulsionadores” atuais do escrinho em Vilar Sêco. Foto © Rúben Castanheiro

Escreva à redação

Subscribe To Our Newsletter

Subscribe to our email newsletter today to receive updates on the latest news, tutorials and special offers!